“Não me venha cá dizer que devemos pedir desculpa pelos 500 anos em Angola”: Ventura defende colonização em debate

André Ventura e José Pacheco Pereira defrontaram-se num debate que rapidamente saiu dos trilhos das regras propostas pelo historiador — sem “ataques pessoais” e “na base de documentação” — para se transformar num duelo dominado pelas interrupções e pela técnica populista do líder do Chega. No centro do confronto: a descolonização, o 25 de Abril e a recusa de Ventura em pedir desculpa pelos “500 ou 600 anos de Portugal em Angola”.
O debate não surgiu no vazio. Tem por pano de fundo um conflito aberto e crescente entre Ventura e Angola que se arrasta há meses. Nas cerimónias do 50.º aniversário da independência angolana, em Luanda, o Presidente João Lourenço afirmou que o colonialismo português oprimiu e escravizou os angolanos durante séculos — na presença de Marcelo Rebelo de Sousa, que ficou em silêncio. Ventura reagiu classificando o momento como uma vergonha e uma humilhação para Portugal, considerando que um Presidente português digno ter-se-ia levantado e virado as costas.
A tensão escalou ainda mais durante a visita de Estado de João Lourenço a Portugal, quando Ventura classificou o chefe de Estado angolano como “ditador e sanguinário” e o acusou de ter pago a jovens para simular popularidade junto à Assembleia da República, em Lisboa. Quando a greve dos taxistas em Luanda eclodiu em protestos, violência e mortes, Ventura voltou a entrar na polémica, declarando nas redes sociais apoio ao “movimento que se levanta” em Angola.
A TPA respondeu por duas vezes. Na noite de 29 de Julho, o Telejornal leu uma mensagem institucional classificando as declarações de Ventura como “arrogantes”. Mais tarde, o jornalista Ernesto Bartolomeu leu um novo comunicado em directo, após a estação ter ficado estupefacta, concluindo sem rodeios: “André Ventura é candidato a Presidente da República Portuguesa, temos a certeza de que o senhor não vai vencer as eleições porque o povo português, que é sábio, não vota em mentecaptos.”
De volta ao debate, Ventura manteve sobre a descolonização a linha que tem defendido publicamente. Admitindo que o “regime errou quando não percebeu que os ventos eram de mudança nas colónias”, recusou qualquer ideia de arrependimento colectivo e afirmou que houve “coisas boas” na colonização. “Não me venha cá dizer que nós devemos pedir desculpa pelos nossos 500 ou 600 anos em Angola”, declarou. Reiterou que “Portugal traiu” o seu exército e os antigos combatentes, que foram “abandonados à sua sorte”, responsabilizando figuras como Mário Soares. Defendeu ainda que os militares portugueses estavam apenas a cumprir ordens e que o país não se deve penitenciar, concluindo com uma frase de efeito: “Tivemos uma revolução miserável.” Para Pacheco Pereira, a declaração resume-se a uma “mistura de ignorância e demagogia”.
Do lado angolano, a resposta ao argumentário de Ventura tem sido igualmente directa. O jornalista Ernesto Bartolomeu sublinhou que o colonialismo não apenas escravizou povos africanos, como também afectou gravemente o povo português, e que o movimento dos Capitães de Abril ocorreu precisamente porque jovens portugueses foram enviados como “carne de canhão” para as colónias. O MPLA classificou as declarações de Ventura como “triviais”, considerando que para um líder populista é absolutamente trivial atacar tudo e todos — e que atacar Angola simplesmente dá votos.
Fonte: P



