Harry Kane estragou os planos do Congo no Mundial

Inglaterra esteve a perder durante mais de uma hora e a reviravolta foi consumada pelo instinto matador do avançado do Bayern. Segue-se o México, nos oitavos-de-final.
O favorito tremeu mas não caiu. O filme repetiu-se nesta quarta-feira, em mais um jogo dos 16 avos-de-final do Mundial 2026. Em Atlanta, a Inglaterra esteve a perder durante mais de uma hora com a República Democrática do Congo, mas conseguiu a reviravolta nos últimos minutos (como antes tinham conseguido o Brasil ou a Noruega): 2-1. E bem pode agradecer a Harry Kane o bilhete para os “oitavos”.
A competência defensiva do Congo marcou os primeiros 22 minutos. Organizado em 5x4x1, sem bola, obrigou sempre o adversário a circular a bola por fora do bloco, mostrando-se totalmente confortável. Prova disso é que o guarda-redes Mpasi se limitou, neste período, a um par de saídas para inviabilizar cruzamentos e a ser ponto de passagem da bola na circulação em zonas baixas.
Do lado contrário do relvado, a contundência foi outra. Na primeira abordagem à área britânica, o Congo marcou mesmo: Mbemba cruzou largo, Wissa e Sadiki arrastaram a marcação de centrais e lateral direito e Cipenga, extremo do Almeria,35 ficou livre nas costas de Spence para receber, enquadrar e finalizar com êxito (7′) – com a contribuição de Pickford, que deixou a bola entrar ao primeiro poste.
Portugal já tinha sentido na pele quão difícil é desmontar a muralha congolesa. E o problema de Inglaterra agudizou-se quando os índices de concentração baixaram – passes errados, más recepções e decisões técnicas complicaram a tarefa. Nos corredores laterais, nem Rashford, nem Madueke ganhavam vantagem e Kane era um pária, excluído da ideia de jogo por falta de serviço.
A primeira pausa para hidratação ajudou a lançar luz sobre a forma de chegar à baliza de Mpasi. Spence subiu uns metros na direita (auxiliando Madueke), O’Reilly fez o mesmo à esquerda (apoiando Rashford) e este risco ajudou a criar pelo menos espaço para cruzamento. Aos 30′, um cabeceamento de Bellingham; aos 35′, um remate de Rashford salvo sobre a linha; aos 43′, Kane a receber na profundidade e cair na área. Reclamou penálti, mas não teve sorte – o árbitro considerou simulação.
No lance imediatamente anterior, a melhor ocasião (fora o golo, naturalmente) do primeiro tempo tinha esbarrado no poste da baliza inglesa, quando Wissa, já na pequena área, desviou um cruzamento de Mbuku para o ferro. O 2-0 estava iminente, mas o 1-1 também ficou, quando, em cima do intervalo, Kane rematou de primeira após canto para uma defesa eficaz.
Inglaterra ia precisar de continuar a insistir e elegeu o corredor esquerdo como via preferencial. Rashford, com espaço, ameaçou duas vezes nos primeiros 10 minutos (numa delas, Mpasi defendeu a dois tempos). Depois, deu a vez a Anthony Gordon, que entrou em campo acompanhado de Bukayo Saka, numa dupla renovação dos corredores exteriores.
Foi uma aposta ganha. Aos 75′, já com outro desequilibrador em campo, Eberechi Eze, o empate chegou mesmo. Combinação à direita entre Eze e Rice, cruzamento para o segundo poste, assistência de Gordon e cabeceamento oportuno de Harry Kane, claro está, a assinar o 82.º golo em 117 jogos pela selecção.
Estava quebrada a resistência dos congoleses, que não ficaram sentados em cima do empate à espera do prolongamento. E esse foi o convite de que Inglaterra precisava para virar o jogo. Numa transição, descobriu Rashford entre Mbemba e Wan-Bissaka, Mbapsi defendeu a primeira vaga, mas quando a bola chegou a Kane, fez-se magia novamente. De fora da área, de forma espontânea, arrancou um remate imparável que consumou a reviravolta.
Foi o quinto golo do avançado do Bayern Munique neste Mundial, a dar seguimento a uma temporada em que marcou 67 vezes antes de chegar ao torneio (61 ao serviço do campeão alemão). Uma capacidade para decidir jogos que torna a equipa altamente dependente da sua produção – com e sem bola.
Era uma espécie de reedição do Japão-Brasil, com a lógica a imperar na recta final. O Congo ia precisar de um milagre para poder voltar ao jogo, mas Lumumba Vea, o homem-estátua mais célebre do futebol actual, não estava no estádio (o visto para entrar nos EUA tinha sido recusado) e foi mesmo forçado a entregar a Inglaterra o bilhete de viagem para a Cidade do México. É lá que a aventura de Kane na América vai prosseguir.



