Greve dos taxistas: Um ano após os tumultos, taxistas garantem que detenções não os amedrontaram nem travaram reivindicações

A manifestação dos taxistas rapidamente evoluía, para diversas áreas da cidade de Luanda, onde milhares de populares se juntaram àqueles profissionais dando não apenas volume aos protestos, como também dimensão à destruição de bens privados e públicos com enormes focos de incêndio visíveis a quilómetros.
Por toda a cidade ardiam caixotes do lixo, armazéns, lojas, edifícios públicos, esquadras da polícia… numa avalanche de violência que a polícia, incluindo as forças anti-motim e de intervenção rápida, levaram três dias para debelar, depois de alastrar a várias províncias.
Decorrido um ano desde os tumultos de 28 e 30 de Julho de 2025, que resultaram, oficialmente – porque há alegações de que este número foi muito subavaliado – , em 30 mortos, 277 feridos e 1.515 detenções em várias províncias do País, a classe dos taxistas garante manter-se unida e fortalecida.
Os líderes das organizações desta classe profissional que repetem que a luta “continua e continuará para exigir do Executivo respeito e direitos consagrados na Constituição da República”.
Os sete meses de detenção dos líderes das associações e cooperativas de táxi, segundo os próprios, não os inibiram, em momento algum, de prosseguir a luta em defesa da classe.
Volvido um ano desde os acontecimentos que paralisaram o País durante três dias, o Novo Jornal conversou, esta terça-feira, 28, com os líderes da Associação dos Taxistas de Angola (ATA), do Movimento Nacional dos Taxistas de Angola (BASTA) e da Associação de Brigadistas de Paragens de Táxi, nomeadamente Rafael Inácio, Francisco Eduardo e Melo Raimundo.
Estes responsáveis negaram que os taxistas e os lotadores tenham sido os protagonistas dos incidentes ocorridos durante a greve dos taxistas, realizada entre 28 e 30 de Julho, nas províncias de Luanda, Benguela, Icolo e Bengo, Bengo, Huíla, Malanje, Huambo e Lunda-Norte.
Rafael Inácio afirmou que, um ano após a prisão a que os líderes foram sujeitos durante cerca de sete meses, o grupo saiu mais unido, mais forte e determinado a prosseguir a luta.
Segundo o presidente do Movimento Nacional dos Taxistas de Angola, o Executivo não criou estratégias para responder às inúmeras preocupações que os taxistas enfrentam diariamente.
“Infelizmente, estamos diante de um Governo opressor, sem preocupação com o povo trabalhador”, afirmou.
Segundo Rafael Inácio, o apelo dos promotores da greve era para que todos permanecessem em casa. “Ainda assim, as autoridades detiveram os líderes, sem fundamento, durante sete meses”.
Actualmente, os líderes das associações de taxistas asseguram que continuam determinados e sem receio de, no futuro, caso seja necessário, convocar uma nova paralisação da classe.
Francisco Eduardo, da ATA, recordou que, naquela altura, os taxistas contestavam o aumento do preço dos combustíveis, reajustado em 33% no dia 3 de Julho de 2025.
“Naquela altura, o povo não estava em condições de pagar os 300 kwanzas resultantes da subida da tarifa do táxi. Por isso, convocámos a greve sob o lema ‘Fica em Casa’, e os taxistas cumpriram. Mesmo assim, fomos presos”, lamentou.
Segundo o presidente da ATA, a prisão dos líderes das associações de táxi teve motivações políticas e não criminais.
“Eles queriam celebrar o 11 de Novembro, sobretudo com a vinda da selecção de futebol da Argentina, connosco presos, porque entendiam que poderíamos estragar as festividades, por nos considerarem um perigo para o Estado”, desabafou.
Francisco Eduardo realçou ainda que a classe está preparada para enfrentar os desafios futuros.
“Os acontecimentos de Julho não nos amedrontaram. Pelo contrário, deixaram-nos mais fortes e reforçaram a nossa liderança”, afirmou.
Por sua vez, Melo Raimundo, da Associação de Brigadistas de Paragens de Táxi, disse que, durante o período em que estiveram detidos, não encontraram nas cadeias de Luanda lotadores detidos por envolvimento directo nos motins.
“Com a paralisação, concretamente, não tivemos taxistas nem lotadores envolvidos nos acontecimentos de 28, 29 e 30 de Julho”, relatou.
Decorrido um ano, Melo Raimundo assegura que nenhum líder deseja reviver aqueles acontecimentos, mas garante que não desistirá de lutar pelos direitos da classe.
O presidente da Associação de Brigadistas de Paragens de Táxi revelou que a classe dos lotadores está organizada e tem contribuído para o desenvolvimento do País, embora se queixe da falta de políticas públicas por parte do Governo para o sector.
Entretanto, as associações e cooperativas de táxi realçam que actualmente não há qualquer taxista ou lotador preso por causa dos acontecimentos de Julho e recordam que todos os líderes detidos foram libertados pelo tribunal, em Janeiro deste ano, por insuficiência de provas.
Ainda assim, os taxistas afirmam continuar a enfrentar dificuldades junto do Executivo para a atribuição da carteira profissional, uma reivindicação antiga da classe.
A par das detenções, ficou ainda um rasto de destruição de bens e propriedades pública e privada, sendo que, como se pode reler aqui, ainda está longe de ter sido resolvida, como o Governo prometera na altura.
Quanto aos acontecimentos de Julho de 2025, a deputada da UNITA e 2.ª vice-presidente da Assembleia Nacional, Arlete Chimbinda, afirmou que o assunto continua sem ser debatido nem aceite no Parlamento.
A deputada fez esse depoimento esta terça-feira, 28, durante um diálogo com a sociedade dedicado à reflexão sobre a greve dos taxistas, um ano depois.
A greve não resultou apenas em mortos e feridos, mas também provocou profunda dor e prejuízos para dezenas de empresas cujos estabelecimentos foram destruídos durante os tumultos.
Na altura, o Executivo anunciou a criação de uma linha de financiamento de 50 mil milhões de kwanzas para apoiar os estabelecimentos comerciais afectados pelo vandalismo. Contudo, o Novo Jornal apurou que nem todas as empresas beneficiaram desse apoio, devido às exigências e políticas de financiamento do banco credor, o BPC.



